APRENDER A LER NÃO É UM ACTO PURAMENTE SOCIAL

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No programa Especial informação: Saber educar, conduzido pela jornalista Fátima Campos Ferreira, ouvi algumas declarações, efetuadas pelo doutor João Lopes, que me pareceram incorretas ou, pelo menos, incompletas. Fica aqui o benefício da dúvida. Passo a citar algumas dessas afirmações:

(…) aprender a ler é um acto puramente social (…) isto não tem nada de biológico…

(…) os nossos alunos aprendem na primeira fase da leitura a ler muito rapidamente e com grande sucesso…

(…) o nosso problema não está no início (…) o nosso problema está a partir do 3.º e 4.º anos, diria eu, em que eventualmente temos alguma falta de treino que não nos permite automatizar, sobretudo, o reconhecimento de letras, o reconhecimento de palavras e depois gastamos toda a nossa energia na interpretação do texto…

(…) aprende-se a ler, lendo (…) é preciso treinar muito (…)

Tendo por base estas afirmações, que envolvem um tema tão delicado como o da aprendizagem da leitura, com todas as complexidades que lhe são inerentes, passo a analisar cada afirmação proferida pelo doutor João Lopes de acordo com a minha experiência e a investigação feita sobre o assunto. Antes de o fazer, gostaria, no entanto, de dizer que vejo nas afirmações do doutor João Lopes algum fundamento, confuso é certo, embora, propositadamente ou não, não se tenha debruçado sobre a origem dos problemas de leitura, por exemplo da dislexia, o que põe em causa muito do que disse e desrespeita os direitos dos alunos com dislexia.

Ora vejamos.

A primeira afirmação, “(…) aprender a ler é um ato puramente social (…) isto não tem nada de biológico…”,parece-me ambígua, até imprecisa, dado que, se por um lado podemos afirmar que a aprendizagem da leitura, em crianças ditas sem problemas, pode ser influenciada por fatores ambientais (tipo de instrução e cultura dos familiares da criança, pais, irmãos mais velhos, avós, etc.), económicos e sociais (não apenas sociais como é dito pelo doutor João Lopes), causando problemas nessas crianças se um ou mais desses fatores for afetado; por outro lado, no caso das crianças com dificuldades de aprendizagem específicas, particularmente, das que apresentam dislexia, os problemas de leitura, pese embora a existência de condições ideais para a aprendizagem da leitura (fatores citados atrás), são biológicos. O mesmo é dizer que a dislexia (desenvolvimental) tem sempre uma origem biológica, isto é, resulta de problemas na estrutura e funções do cérebro. Aliás o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-V, 2013) define as dificuldades de aprendizagem (onde se insere a dislexia) da seguinte forma: “Uma dificuldade (desordem[1]) de aprendizagem específica é uma desordem (distúrbio) neurodesenvolvimental com uma origem biológica constituindo-se como a base para anomalias a nível cognitivo associadas a sinais comportamentais característicos da desordem (distúrbio)” (Specific learning disorder is a neurodevelopmental disorder with a biological origin that is the basis for abnormalities at a cognitive level that are associated with the behavioral signs of the disorder).

Considerando a segunda afirmação, “(…) os nossos alunos aprendem na primeira fase da leitura a ler muito rapidamente e com grande sucesso…”, se a analisarmos conjuntamente com a terceira afirmação, “(…) o nosso problema não está no início (…) o nosso problema está a partir do 3.º e 4.º anos, diria eu, em que eventualmente temos alguma falta de treino que não nos permite automatizar, sobretudo, o reconhecimento de letras, o reconhecimento de palavras e depois gastamos toda a nossa energia na interpretação do texto…”, verificamos algum desnorte por via do que parece ser uma contradição. Ora, é dito que na “primeira fase da leitura” (será que se quer dizer no 1.º e 2.º anos) os alunos não apresentam problemas; ora, é dito logo a seguir que no 3.º e 4.º anos os alunos começam a ter problemas na leitura que não lhes permite automatizar (o reconhecimento de letras?), levando-os, presumivelmente, a um esforço enorme no que respeita à compreensão de um texto. Se estas afirmações se referem a todos os alunos, então estamos perante uma contradição pouco inteligível. Penso que não será o caso. O que possivelmente estaria na mente do doutor João Lopes seriam os casos em que os problemas na automatização (que pode ser definida como a leitura de uma palavra de uma forma rápida, correta e fluída) levam a problemas na compreensão. Ou seja, a acuidade e velocidade com que um aluno lê uma sequência de palavras (automatização e fluência) são os melhores preditores de uma compreensão eficaz. E, se assim é, os casos que diz problemáticos no 3.º e 4.º ano, são casos, muitos deles, com uma origem biológica que já se arrastam desde os primeiros anos escolares. Casos de crianças com dislexia, por exemplo. Casos a necessitarem de atenção, tantas vezes individualizada, prestada por indivíduos especializados (neste caso, por exemplo, em dificuldades de aprendizagem específicas) que saibam usar técnicas específicas comprovadas pela investigação para que os resultados se mostrem eficazes.

Quanto à quarta afirmação, “(…) aprende-se a ler, lendo (…) é preciso treinar muito…”, realmente, no caso dos alunos ditos sem problemas e integrados em ambientes favoráveis, em que a aprendizagem da leitura parece ser ” um ato puramente social”, o treino é essencial. Contudo, embora também o seja no caso dos alunos cujos problemas de leitura tenham uma origem biológica (ex.: dislexia), é crucial que se considerem técnicas, estratégias e atividades específicas tal como, por exemplo, o método multisensorial, o ensino direto, o ensino baseado em projetos de cariz mais artístico, exercícios multivariados (rimas, divisão silábica, sons iniciais e finais) que estimulem o desenvolvimento das capacidades relacionadas com a consciência fonémica e fonológica, entre outros. Caso contrário estes alunos continuarão nas escolas entregues à sua sorte e alvo de retenções frequentes.

Luís de Miranda Correia

[1] Aqui tida como uma perturbação ou distúrbio no funcionamento regular de alguma coisa, neste caso do cérebro; um mal que afeta a função mental ou do corpo; ou uma perturbação da saúde física ou mental de um indivíduo.

 

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