Enquadramento

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Antes de propriamente nos reportarmos ao conceito de dislexia achamos por bem enquadrá-lo no “conceito-mãe”, ou seja, nas dificuldades de aprendizagem específicas (DAE), dado que o termo DAE se refere a “dificuldades” em diferentes padrões de aprendizagem que se situam entre o ligeiro e o severo. Quer isto dizer que, no seu percurso escolar, uma criança pode manifestar qualidades excecionais em várias áreas académicas e, por outro lado, encontrar dificuldades acrescidas noutras dessas áreas, embora essas dificuldades não sejam causadas por problemas do foro sensorial, motor, emocional ou como resultado de dispedagogias (ensino inadequado) ou ambientes culturalmente pobres. 

Para termos uma ideia do que são DAE, apresentamos a seguir a definição proposta pelo professor Luís de Miranda Correia que diz o seguinte:

“As dificuldades de aprendizagem específicas dizem respeito à forma como um indivíduo processa a informação – a recebe, a integra, a retém e a exprime –, tendo em conta as suas capacidades e o conjunto das suas realizações. As dificuldades de aprendizagem específicas podem, assim, manifestar-se nas áreas da fala, da leitura, da escrita, da matemática e/ou da resolução de problemas, envolvendo défices que implicam problemas de memória, percetivos, motores, de linguagem, de pensamento e/ou metacognitivos. Estas dificuldades, que não resultam de privações sensoriais, deficiência mental, problemas motores, défice de atenção, perturbações emocionais ou sociais, embora exista a possibilidade de estes ocorrerem em concomitância com elas, podem, ainda, alterar o modo como o indivíduo interage com o meio envolvente.

De acordo com esta definição, podemos inferir que uma criança com DAE apresenta problemas no processamento de informação que a pode impedir de efetuar aprendizagens com sucesso. Por exemplo, uma criança com DAE pode, ao receber a informação, auditiva ou visualmente, ter problemas em compreendê-la ou em atribuir-lhe significado. Ou em organizá-la para que faça sentido. Ou em retê-la, tendo por base a memória de curto ou longo prazo. Ou, mesmo, em expressá-la quer verbalmente quer em termos motores. Ou seja, esta mesma criança pode exibir um elevado grau de discrepância no que respeita às diferentes áreas de competência. Pode ser um bom leitor, mas ter dificuldade em soletrar palavras. Pode, também, como diz a definição do professor Luís de Miranda Correia, ter dificuldades na fala, na escrita, na matemática, na resolução de problemas, alicerçados em problemas de memória, percetivos, motores, de linguagem e/ou metacognitivos. Há ainda a possibilidade de apresentar problemas no domínio socioemocional. Contudo, é importante que se perceba que o termo DAE não é mais do que um “chapéu-de-chuva” que aloja um conjunto de desordens específicas (daí usarmos o termo dificuldades de aprendizagem específicas) de entre as quais se destaca a dislexia por ser a desordem mais prevalente de todas elas. Cerca de 80% das crianças com DAE são crianças com dislexia. Outras desordens que se enquadram nas DAE são, por exemplo: as disgrafias (dificuldades na escrita resultando, tantas vezes, na sua ilegibilidade); as discalculias (dificuldades na matemática e nos seus conceitos); as dispraxias (dificuldades na planificação/coordenação motora); os problemas de perceção auditiva (o National Joint Committee on Learning Disabilities diz serem dificuldades na capacidade para perceber as diferenças entre os sons da fala e para sequenciá-los em palavras escritas, sendo uma componente essencial no que concerne ao uso correto da linguagem e à descodificação da leitura); os problemas de perceção visual e visuomotora (o National Joint Committee on Learning Disabilities diz serem dificuldades na capacidade para observar pormenores importantes e dar significado ao que é visto, sendo uma componente crítica no processo de leitura e de escrita); os problemas de memória de curto e longo prazo (dificuldades em armazenar e/ou recuperar ideias ou factos como, por exemplo, números telefónicos, endereços e instruções para realizar uma tarefa); e as dificuldades de aprendizagem não verbais (dificuldades em desempenhar tarefas não verbais como, por exemplo, interpretar a linguagem corporal).

Posto isto, passamos de novo ao conceito de dislexia.

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