OS ESPECIAIS VERSUS OS DIREITOS DOS ESPECIAIS

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PONTO

OS “ESPECIAIS”

(Artigo publicado no jornal Público)

 

A criação da categoria de “especial” é útil para vender mercadorias mas parece muito perniciosa quando se trata de assegurar o direito a todos – a todos os “normais” – à Educação.

Folheando a imprensa e a publicidade que nela se publica, descobrimos que há dois tipos de publicidade: a “inclusiva” e a “exclusiva”. Explico-me: há artigos que se promovem afirmando que agora todos os podem possuir e ter acesso a eles. “Agora você também tem possibilidade de…”.

O que antes era exclusivo tornou-se acessível e possível. Esta febre da “inclusão” tem chegado aos mais diversos campos da publicidade: já se podem ler anúncios em restaurantes que anunciam um “menu inclusivo” (uma refeição que inclui sopa, sobremesa, etc.) e até uma conhecida marca de bagagem anuncia malas inclusivas (isto é aquelas que são capazes de levar tudo, mesmo tudo). Mas há também a publicidade exclusiva que se esforça por colocar o seu produto não como algo que está ao alcance de todos, algo vulgar e posse e usufruto fácil mas sim como um privilégio que está só alcance de alguns, de uns poucos eleitos que, por terem dinheiro, bom gosto ou sofisticação, só esses os podem possuir e alcançar.

De certa forma estas duas formas de publicidade falam de casos “especiais”: a publicidade “inclusiva” promove os consumidores a “especiais” porque podem, sem esforço ter acesso a um produto de qualidade; a publicidade “exclusiva” promove as mercadorias especiais que só poderem ser desfrutadas por pessoas também elas especiais.

O mercado, o sacrossanto mercado que nos impõe práticas e valores draconianos, promove desta forma as características “especiais” dos consumidores e das mercadorias. Desta forma uns se sentem valorizados por incluídos e outros se sentem valorizados por serem “positivamente excluídos” ao terem acesso a artigos exclusivos. Mas uns e outros procuram “o especial”.

Na Educação também se procura o “especial”. Parece estranho que, numa empresa social que se destina a todos, que é inclusiva por natureza, mesmo assim se use a palavra “especial”. Mas afinal quem são os “especiais” em Educação? Bom, os especiais são os que não são normais – parece muito lógico. Teríamos assim dois tipos de alunos os “especiais” e os “normais” sendo que os especiais são aqueles que não são normais. Para os alunos normais a estrutura escolar funciona tal como existe e para os especiais a escola tal como está organizada não funciona (tem de ser mudada). Esta aparente transparência conceptual encerra enormes problemas e erros. Vamos ver:

Antes de mais esta divisão entre “normais” e “especiais” é artificial e incorreta. Muitos dos alunos não especiais precisam de apoio para que possam aprender na escola tal como ela existe. E lembro: o estudo acompanhado, o trabalho dos pais em casa, as “explicações”, as “salas de estudos”, etc. , mostram que os alunos normais para o serem têm que atravessar frequentemente fases de “especiais”. Ora aqui está um tema interessante: o que é que há de especial nos alunos normais? Por outro lado, os alunos que por terem uma condição de aprendizagem de deficiência ou de saúde (não é demais insistir que não são a mesma coisa) que manifestamente coloque a escola em dificuldade para o educar com os meios que dispõe, são crianças e jovens com conhecimentos, experiências e vivências em tudo semelhantes aos seus colegas sem estas condições. E assim vemos que os “especiais” atravessam fases de alunos “normais”. Se há esta enorme contaminação e comunhão entre as vidas, as experiências e as vivências, porque havemos de insistir em separar especiais e normais?

Outorgar o estatuto de especial a alguém pode parecer – como vimos no exemplo da publicidade – um privilégio. Pode parecer, mas não é. E não o é porque demonstra a fragilidade da nossa organização social ao não conseguir responder capazmente às diferenças entre as pessoas sem lhes atribuir um estatuto “especial”. Por outro lado, é interessante investigar o que é que se ganha e o que é que se perde com um estatuto de “especial”. Certamente que ser “especial” na escola ou na sociedade constitui um forte argumento para se economize nos direitos e nos meios de desenvolvimento que acharíamos imprescindíveis se a pessoa não fosse especial. Há pouco tempo um educador perguntava-me espantado porque é que um aluno com paralisia cerebral queria ir ao futebol. Será que ele faria a mesma pergunta se o aluno não fosse “especial”?

“Necessidades educativas”, todos os alunos as têm e todas são normais. Há sim necessidades que precisam de respostas menos habituais mas isso não significa que sejam especiais, que sejam únicas e radicalmente diferentes das outras. Significa, tão só, que as respostas que têm que ser dadas às suas necessidades têm de ser adaptadas e adequadas de forma a poderem ser recebidas pelo aluno.

A criação da categoria de “especial” é útil para vender mercadorias mas parece muito perniciosa quando se trata de assegurar o direito a todos – a todos os “normais” – à Educação.

 

David Rodrigues

Professor Universitário, presidente da Pró-Inclusão

Associação Nacional de Docentes de Educação Especial

 

 

CONTRAPONTO

 

OS DIREITOS DOS “ESPECIAIS”

Aprender a falar, a ler, a escrever e a contar é, com certeza, o desejo de todas as crianças e a aspiração de todos os pais. Mas, se por um lado 80% das crianças são capazes de aprender sejam quais forem as estratégias que se usem, o mesmo já não se pode dizer das restantes 20%. As lutas pelas aprendizagens são diárias e contínuas, deixando marcas tantas vezes irreparáveis.

Uma das primeiras marcas poderá situar-se na autoestima: a vergonha apodera-se delas ao verificarem que o que é tão simples para os colegas não o é para elas. E mesmo aquelas tarefas que parecem triviais no dia-a-dia, transformam-se em pesadelos constantes, inibidores das qualidades que, porventura, elas possam possuir.

É este o mundo da maioria das crianças com necessidades educativas especiais, incompreendidas, maltratadas, abandonadas à sua sorte. E pela forma como as coisas andam em matéria de educação, será este o mundo que continuará a atormentá-las? Será pior, talvez, se tivermos em conta a retórica que, cada vez mais, nos assalta a inteligência e tantas vezes as empurra para becos sem saída.

The art of the stupid, diria JamesKauffman, ao afirmar que quando alguém diz qualquer coisa estúpida, sem uma intenção humorística, sem um pedido de desculpas, ou sem um motivo óbvio, é porque tem algo para vender. E muita gente em educação ganha a vida a pensar em coisas estúpidas para pôr em prática ou, simplesmente, para se afirmar.

Vem isto a propósito daqueles que, repetidamente, e com a marca da pomposidade científica espelhada no rosto nos atiram à cara chavões que, como diriam Clabaugh e Rozycki,“pretendem dar a impressão de consenso sem possuírem qualquer substância”.

Embora pudesse aqui citar dezenas de chavões usados em educação, aquele a que pretendo chamar a atenção refere-se ao popularíssimo “todos temos necessidades educativas especiais” e suas variantes, “ todos somos especiais”,celebremos a diferença”, “celebremos a diversidade” e por aí adiante, termos usados sem qualquer despudor, não só por quem faz educação, mas também por quem pretende vendê-la ao público em geral. Embora popular, esta propaganda afigura-se-me sem qualquer sentido. Mesmo que, como afirma Kauffman, “aceitemos factos irrefutáveis que se prendem com a nossa unicidade genética, com a heterogeneidade de características que nos são inerentes, com a afectividade que nos prende aos entes queridos tornando-os especiais”, em educação não é este o sentido que damos ao termo especial. Ao pretendermos fazer de toda a criança uma criança especial, de certa forma uma criança com necessidades especiais, estamos a entrar num campo de areias movediças que só a demagogia pós-moderna pode tolerar e incentivar.

A retórica do igualitarismo, quando este não se vê dentro de uma perspectiva das nossas necessidades, das diferenças significativas que alguns de nós possuem, embora possa encantar e seduzir aqueles menos preparados, não passa de isso mesmo, de uma discussão palavrosa, pobre de ideias. Ao pretendermos fazer crer que todos temos necessidades especiais, no que toca à educação, isto simplesmente quererá dizer que nenhuma criança tem realmente necessidades especiais. Ou não será assim? E, se assim for, então todas elas terão o mesmo sucesso escolar, serão capazes de fazer as mesmas coisas, de resolver os mesmos problemas e por aí adiante.

Neste pingue-pongue retórico, fruto da nossa ignorância ou munidos de intenções particulares, vamo-nos esquecendo que haverá sempre alunos cujos problemas na leitura ou na matemática os acompanharão durante todo o seu percurso escolar, malgrado os bons professores que com eles se poderão cruzar, caso não consideremos a significância da sua diferença. A verdadeira aceção do termo necessidades (educativas) especiais.

Partilho da mesma opinião de Kauffman quando diz esperar que “um dia nos possamos rir daqueles que, em posições de poder, no que toca à educação, sugiram coisas como ‘todas as crianças têm necessidades educativas especiais. (…) Todos somos especiais’”

Reconhecer a significância da diferença, quando falamos de alunos com NEE, para, assim, podermos respeitar as suas características, capacidades e necessidades e, consequentemente, considerar métodos de ensino adequados e diferenciados, é, quanto a mim, essencial. A diferenciação e a individualização são aqui conceitos ímpares a ter em conta. Diria, até, “que a diferenciação (conjunto de estratégias e métodos específicos) está para o ensino, como a individualização está para as características e necessidades do aluno.”

 

Luís de Miranda Correia

Professor Catedrático Emérito, Universidade do Minho

 

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