Reprovar pode ajudar alunos mais desfavorecidos ?

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Num dos cadernos do jornal Público de 29 de Novembro de 2014, dedicado ao “Ranking Básico e Secundário”, figurava uma entrevista a Manuel Coutinho Pereira, especialista em economia da educação, efetuada por Maria João Lopes.

 

PONTO

Na supracitada entrevista, para além do título, REPROVAR PODE AJUDAR ALUNOS MAIS DESFAVORECIDOS A “COLMATAR CARÊNCIAS”, há respostas a perguntas que nos levantam muitas dúvidas, tal como:

 

Pergunta: – E o que acontece aos alunos com dificuldades?

Resposta: – Não são prejudicados pelos exames nacionais, porque o facto de as dificuldades virem ao de cima cria uma necessidade óbvia de serem ajudados.

 

Pergunta: – Também defende que alunos “cujas características socioeconómicas os tornam mais propensos a repetir são, regra geral, também os que mais ganham” com isso. Como é que isto se articula com o que acabou de dizer?

Resposta: – Constatamos que o facto de se pertencer a um estrato socioeconómico mais desfavorecido torna um pouco mais provável que o estudante seja retido. E são esses também que tendem a ganhar mais com a retenção no 3.º ciclo e a perder menos no 1.º e 2.º ciclo.

 

Pergunta: – Alunos de contextos mais desfavorecidos beneficiam mais com a retenção, independentemente do ciclo de ensino?

Resposta: – O estrato socioeconómico de onde o estudante provém tem impacto sobre o desempenho e a retenção desses estudantes pode colmatar deficiências que têm em casa. Se o acompanhamento por parte dos pais e os recursos educativos em casa forem um pouco inferiores, o efeito da repetência pode ser mais positivo do que nos estudantes que não tenham essas carências. Ter repetido um ano dá-lhe alguma hipótese de instrução adicional, de mais exposição à matéria.

 

 

CONTRAPONTO

 

De acordo com a investigação feita por um grande número de especialistas, citados por diversas organizações e instituições educacionais, na quase maioria dos casos, a retenção não aumenta a capacidade de um aluno para a aprendizagem. De facto, a investigação, diria também o senso comum, diz-nos que o facto de um aluno repetir um ano não quer necessariamente dizer que ele irá ter sucesso educacional, tanto mais que, grosso modo, tal situação geralmente não tem em conta os problemas que ele estará a experimentar. No caso dos alunos em risco (ex.: alunos mais desfavorecidos) ou com necessidades educativas especiais (NEE), a retenção não é de todo uma prática saudável. Aliás, tenho repetido variadíssimas vezes, ao longo de muitos anos, que as políticas educativas adoptadas pelos sucessivos governos não têm servido os interesses dos alunos com necessidades especiais, designadamente dos alunos com NEE, particularmente quando se trata de alunos com dificuldades de aprendizagem específicas (DAE). Estes, apesar das várias desordens neurológicas que possam apresentar e que podem afectar severamente o seu processamento de informação, vindo a originar problemas académicos graves nas áreas da leitura, da escrita e/ou da matemática (dislexias, disgrafias, discalculias), e mesmo de natureza socioemocional, estão dotados a um abandono tal, em termos de respostas educativas eficazes, que a escola geralmente encontra como solução uma só resposta: a retenção. Tal procedimento faz com que estes alunos, tão repetidamente retidos, na maioria dos casos, só encontrem uma solução face a uma tremenda incompreensão por parte do sistema educativo, o abandono escolar que, para muitos deles, poderá significar toxicodependência, delinquência, desemprego e até prisão.

Assim sendo, a retenção, na minha óptica, nunca foi a solução pois só traz consigo consequências negativas, lesivas tantas vezes dos interesses e direitos dos alunos. De entre uma vasta gama de consequências posso citar, por exemplo:

 

  • O sentimento de insucesso, e no caso dos alunos com DAE (com inteligências na média ou acima da média), de punição, que uma retenção traz consigo;
  • O stress contínuo que o aluno experimenta ao ter de conviver com colegas mais novos, mais imaturos fisicamente, não compreendendo porque não acompanhou os seus colegas que passaram para o ano seguinte;
  • A repetição de muitas das mesmas tarefas académicas, colocando-o, tantas vezes, numa situação de letargia constante, de tédio permanente;
  • A diminuição da sua auto-estima.

 

Estas são algumas das consequências que a investigação incessantemente refere, confirmadas por um estudo recente, efectuado pela Doutora Helen McGrath, da Universidade de Deakin, Austrália, que, depois de analisar dezenas de estudos publicados sobre a matéria nos últimos 75 anos, nos EUA e na Austrália, chegou à conclusão que eles não confirmavam a hipótese, bem aceite por muitos professores e pais, de que ao reter-se um aluno ele viria a ter mais sucesso escolar. Pelo contrário, os estudos confirmavam que os alunos retidos apresentavam uma muito maior percentagem de abandono escolar, 20 a 50% destes alunos abandonaram a escola.

Claro que promover o aluno com DAE para o ano seguinte não será, talvez, a solução ideal, caso não se verifique um conjunto de pressupostos que, também, ao longo de vários anos, tenho vindo a chamar a atenção, ou seja, como referi acima, há que se ter em conta os problemas que o aluno está a experimentar. De entre eles, destaco, uma vez mais, a clarificação do conceito de DAE, a identificação precoce destes alunos e consequente elaboração de programações educativas consentâneas com as suas necessidades, apoiadas por ajustamentos e/ou adaptações curriculares apropriadas e consumadas por intervenções adequadas e a existência de recursos, serviços e apoios de educação especial.

Caso estes pressupostos, que considero alternativas muito mais eficazes para apoiar os alunos com DAE, não sejam entendidos, nem sequer experimentados de uma forma consentânea com a investigação séria, então não nos admiremos do insucesso escolar que continuamos a ter e dos maus-tratos académicos que persistimos em infligir nos alunos com DAE. Mais, não nos admiremos de afirmações tal como a do título da entrevista citada acima,” REPROVAR PODE AJUDAR ALUNOS MAIS DESFAVORECIDOS A “COLMATAR CARÊNCIAS”.

Para finalizar, diria até que muitas organizações educacionais não apoiam de todo a retenção. A título de exemplo, consultar a Associação Nacional (Americana) de Psicólogos Escolares (National Association of School Psychologists), a Federação Americana de Professores (American Federation of Teachers) e ler o Wrightslaw Retention Flyer.

 

LMC

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